22 de agosto de 2017

dança

A vida toda
Fui espectadora
Observei de longe
Essa dança redentora
Coração saudoso
De passos que meus pés
Não conheciam, de fato


Sua mão encontrou a minha
Em meio à multidão
Me puxou antes que
Eu soubesse o que acontecia
Desorientada pelos holofotes
Busquei sua guia
Via só seus olhos
E neles mergulhei
Com os meus fechados


E eu que nunca soube
Dança alguma
Rodopiava pela pista
Sem medo, sem receio
Dançamos juntos
Em perfeita sintonia
Como se nossos corpos
Conhecessem
Essa dança natural
Mais velha que o animal


Sorrio e lhe conto
“Não sei o que estou fazendo”
Você ri alto
“Se soubéssemos, não seria a vida
uma dança, mas uma caminhada
e vamos concordar,
caminhar não é tão divertido

quanto dançar”

8 de agosto de 2017, Botucatu

miopia

Mais uma noite
Perdida no tempo
Mergulhada no frio
Sozinha no silêncio


Visão borrada
Faróis de carro se misturam
Com sombras humanas
Não há brilho no céu


Distância


Um pouco por dia
Centímetros, hoje
Metros, amanhã
Quilômetros, mês que vem


A distância não me aflige
O que me preocupa
É essa minha miopia
Depois de uns passos


Não te vejo mais

7 de Agosto de 2017, Botucatu

não vou te chamar de amor

Parece que o tempo ri da minha cara
Zomba dos meus apegos
Irônico é o destino que me leva
Estrada acima, morro abaixo, mar adentro
Nunca onde estou
Nunca bem onde quero chegar


O amor veio e o amor se foi
Um vulto à distância ficou com
Os contornos mais claros
Nunca me deixei acreditar
Que um dia por mim
Você sentisse amor


Nunca me permiti te chamar de amor
“Aquele lá que eu gosto um pouco”
“Aquela pontinha de sentimento”
“Mal resolvido” repeti até cansar
Mas no fundo eu sempre soube
Quem eu estava querendo enganar?


Renato me contou, muito tempo atrás
Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira
E eu menti todos os dias, todas as horas
Quando acordei naquele quarto
Com outro que dormia ao meu lado
Meus sonhos me levavam a você


Quantas manhãs acordei ofegando
Peito apertado, coração acelerado
Seu rosto fazia meu mundo girar
Seu nome fazia meu estômago revirar
Alguns centímetros antes do beijo
Segundos antes da confissão


Cruéis os caminhos que nos afastaram
Mais cruéis ainda os que nos aproximaram
Você segura correntes presas aos meus grilhões
Não sei se conhece o peso que carrega
Quando olha em meus olhos e sorri
Enquanto puxa com força meus dois joelhos ao chão


Posso contar os anos, oito, talvez nove
Eu era ela, você era ele, o que mudou?
Eu não sou mais ela, nem você é ele
Por que eu não consigo caminhar
Sem olhar para trás e sentir saudade
Através daquele seu antigo olhar?


Eles eram vasos, se quebraram no tempo
Talvez ainda doa tanto porque eu insisto
Em me agarrar a alguns pedaços dela
E cada vez que aperto com força para não perder
Ela me corta cada vez mais profundo
Pingos de sangue marcam meu caminho


O tempo cínico, cruel, seguiu minha trilha
De sangue, cacos e memórias estilhaçadas
Não vai deixar de ter a última gargalhada
Trouxe a mim de novo um novo amor
Só para entregar as correntes de novo nas mãos

Daquele que jurei não chamar de amor

8 de julho de 2017

começo do fim

Mais um soco
bem no meio do estômago
Dia após dia
Vômito sanguinolento
Será que um dia
você vai parar de me ferir?

Você pelo menos sabe
o que faz comigo?
Será que quem machuca
é você de olhos vendados
ou sou eu que
guio seus punhos fechados?

Me abri de alma e
entreguei a você tudo
cada pedaço do coração
Não recebi muito de volta
Me pergunto se você o escondeu
ou se algum dia o possuiu

Depois de muito pesar
você procura saber
se dói algum lugar
minha cabeça nega
mas meu coração grita
faz essa dor parar

Pernas bambas, joelhos falham
a cada queda
é mais difícil levantar
a culpa é minha
a culpa é sua
as pernas não me sustentam mais

preciso voltar a andar
peço ajuda
alguém pode me levantar?
vejo suas costas
ele estendeu a mão
dolorosas verdades impostas

Começo a ver os sinais
o começo do fim
ou seria o fim do começo?
de qualquer forma
se encerra
nós

e o meu coração

23 de maio de 2017

letargia

Eu abro a conversa, leio e releio as mensagens mil vezes, penso em mais dezenas de respostas, mas a barrinha de digitar continua piscando. Pisca como se cobrasse de mim uma atitude. Mas eu não escrevo, a exaustão mental e emocional simplesmente barram essa capacidade.
Abro o caderno, o livro o slide, sento na cadeira e fico encarando as palavras. Espero que alguma faça sentido, ou que talvez eu seja o primeiro caso descrito de osmose informacional. Mas não, o cansaço pesa minhas pálpebras e desvia minha atenção.
O estresse é tamanho que te mantém numa condição de alerta o tempo todo, impede que você mantenha a atenção na mesma coisa por mais de 30 segundos. Qualquer coisa, por menor que seja, se torna um problema colossal, e você fica pensando nisso, rodando em círculos. Pensa tanto que não resolve nada. É como um abutre voando alto, em círculos, mas que nunca pousa. Não sei se sou o abutre ou a carcaça.
Se eu não te responder, por favor não me cobre. Eu quero responder, mas não consigo. Me desculpa, mas eu simplesmente não posso.
Se eu não conseguir resolver um problema fácil, não julgue. Eu te juro que pensei nele mais do que seria saudável pensar, mas ele me parece o fim do mundo.
Se eu esquecer alguma responsabilidade, tenha paciência, eu vou tentar melhorar.
Mas o estresse, a exaustão, o cansaço emocional, físico, mental, colocaram um pesado manto sobre minha cabeça, em uma tentavia débil de isolar um pouco mundo lá fora, que berra, que grita. Quem sabe amortece um pouco.

18 de maio de 2017

chuva e goteira

A vida vai bem, muito bem, obrigada
Quase consigo ignorar completamente
Aquela pequena nuvem preta
Que se esconde nos cantos da minha cabeça
Mas às vezes ameaça chover

Eu sou um copo sob uma torneira com goteiras
A ponto de vazar
A água pinga incessantemente, um barulho que me enlouquece
aos poucos
Mas ainda dá
pra deixar pra lá

Tempo difícil, ninguém está bem
estresse generalizado, olhos cansados
Cheiro de café no hálito
Mas eu vou bem, obrigada, só preciso olhar pra outro lado
A nuvem chega de lá
a torneira pinga de cá
eu não posso vazar

Amortecida, de pé, entorpecida
chove lá fora
e também aqui dentro
a nuvem não vai mais embora
a goteira pinga mais rápido
o copo cheio parece 
metade
vazio

encharcada, de chuva, de goteira
ainda tenho força
apenas
pra estender a mão gotejante
e fechar a torneira
dum outro errante

24 de abril de 2017

Abusivo

Se seu namorado, ficante, noivo, como for, não te deixa sair com a roupa que você quiser, então ele é abusivo.
Se seu namorado não te deixa usar maquiagem porque "fica parecendo uma puta", então ele é abusivo.
Se seu namorado não te deixa sair sozinha, então ele é abusivo.
Se seu namorado controla suas amizades, então ele é abusivo.
Se seu namorado não te deixa se aproximar ou ser amiga de outros garotos, então ele é abusivo.
Se seu namorado não te deixa falar, então ele é abusivo.
Se seu namorado te faz sentir culpada por ser você mesma o tempo todo, então ele é abusivo.
Se seu namorado manipula os fatos para fazer com que ele esteja certo e você errada, então ele é abusivo.
Se seu namorado faz você duvidar de sua memória e sanidade, então ele é abusivo.
Se seu namorado te torna dependente dele, enquanto faz questão de demonstrar que ele não precisa de você, então ele é abusivo.
Se seu namorado destrói sua autoestima, então ele é abusivo.
Se seu namorado te faz acreditar que está com você por pena, e que você não conseguiria ninguém melhor que ele, então ele é abusivo.
Se seu namorado controla a sua rotina, então ele é abusivo.
Se seu namorado te força a fazer as vontades dele, e te faz sentir obrigada a isso, então ele é abusivo.
Se seu namorado restringe sua liberdade, então ele é abusivo.
Se seu namorado não te deixa ser quem é, então ele é abusivo.
Se seu namorado te agride, física ou psicologicamente, então ele é abusivo.
Se seu namorado te faz sentir um pingo a menos do que a mulher maravilhosa que você é, então ele é abusivo.

Abuso não é só agressão física não, não é só forçar beijo, segurar o braço, empurrar, bater, prender. Abuso é destruir a autoestima, falar alto para te amedrontar, te fazer sentir culpada por tudo o tempo todo, te fazer acreditar que só ele te suporta, por pena, é te fazer ter medo. Medo dele, de perdê-lo, de tudo.
Abuso é um poço fundo, a gente nem percebe que está caindo. Quando nos damos conta, estamos no fundo, com o corpo dolorido e machucado. A subida dá mais medo do que ficar ali, deitada no escuro, sozinha. Começar a subir machuca os dedos, suas pernas são fracas. Dói, demora, dá vontade de desistir. Mas conforme você sobe, você fica mais forte, você aguenta, a luz está cada vez mais perto. Ás vezes uma alma amiga aparece com uma corda para te ajudar, o que ameniza um pouco a dor da escalada. Mas o último passo, a última içada para fora desse poço, é você mesma quem dá.
Você olha para trás feliz, confiante, orgulhosa. Olha ao seu redor e vê milhares de poços, infinitos. Cada qual guarda sua própria alma estilhaçada, amedrontada. Cada uma lutando uma batalha que você conhece, cujas cicatrizes vão te acompanhar para sempre. Mas tem um lado bom: do lado de fora, você pode ajudar.
Você não está sozinha, você não precisa enfrentar tudo sozinha.
Vamos todas juntas. 

12 de abril de 2017

Alguém

Dá vontade de gritar, de berrar, de pedir, implorar.
Por favor, será que um dia vocês vão me ouvir?
Quando vão ouvir meus desejos, meus anseios, minhas angústias?
Quando alguém vai me levar a sério?
Todos os dias eu me apago por você, por ele, por ela. Eu me reprimo, eu não imponho meus desejos, eu não peço, eu não imploro, eu levanto a cabeça e sigo. Eu faço o que você me pede, o que você quer, é só falar e eu vou fazer. Talvez não me faça bem, mas eu vou fazer, porque vai TE fazer bem.
Quando será que alguém pensará o mesmo por mim? Acho que nunca.
Será que sou tão patética por querer algum tempo a mais com você?
Será que sou tão preguiçosa por querer um tempo só pra descansar?
Será que sou tão covarde por ter medo de falar não?
Eu não sei, é uma trava. Quando chega a hora de falar "não, já deu, agora eu decido", eu não consigo.
Por favor, não me culpe por isso se eu for desabafar com você. Eu não preciso de alguém que me diga que isso não é saudável, eu sei que não é, eu sinto com cada fibra do meu corpo dolorido, eu preciso de alguém que me escute e me seja gentil. Alguém que sacrifique um pouco do próprio tempo e conforto por mim, como eu faço por tantos outros.
Me sinto arrogante falando isso, mas preciso contar pra algo. Pra alguém.
Se você estiver lendo isso, saiba que independentemente de quem você é, eu faria por você. Eu faria qualquer coisa pelo seu sorriso e pelo seu bem, mesmo que me sacrifique dia após dia.
Eu sempre fui assim, mais dos outros do que de mim mesma.
Não me peça pra não ser assim, eu sou, e não vai mudar.
Por enquanto eu ainda aguento.
Não ser eu.

5 de março de 2017

Despedidas

Eu sempre contei despedidas.
Sempre que me despeço, eu conto na cabeça quantas vezes mais vou precisar dizer adeus até o dia em que eu não precise mais me despedir.
É duro dizer isso, mas descobri que não acaba. A gente nunca para de dizer adeus. Adeus a sua família, antes de ir para a faculdade, adeus aos amigos, antes de voltar pra sua cidade, adeus ao namorado ou à namorada, que mora longe.
Esses são os mais fáceis, porque a gente fala, a gente abraça, toca, beija, chora. Difíceis são aquelas despedidas que a gente dá e nem sabe. Um amigo que se tornou distante e agora não passa de um conhecido, o namoro que termina sem que a gente perceba que acabou, e quando nos damos conta, perdemos alguém importante e nem tivemos a chance de dar um abraço, um beijo, um até logo.
Pior ainda são as despedidas forçadas, para alguém que nos deixou e não vai voltar. Sem data nem certeza de se ver de novo, ficamos somente com as lembranças.
Eu sempre contei despedidas. Soluçadas em meio a lágrimas de uma janela de ônibus; correndo em direção a uma nova viagem, a um novo lugar; entaladas na garganta em uma sala cheia de saudade e tristeza. Contei despedidas demais para ter a ingenuidade de achar que um dia elas acabam.
Mas sabe, elas fazem parte da vida. Nos fortalece, nos torna pessoas melhores. A saudade e a vontade de ser ver são enormes, e isso torna o reencontro ainda melhor. Damos mais valor quando sentimos falta.
Talvez por isso eu ainda conte despedidas. Quantas faltam pra eu não sentir mais tanto aperto no peito. Talvez seja em vão, porque ele nunca diminui. Continuo contando, porque, como diria Renato Russo, quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

7 de janeiro de 2017

Eu perdi

Eu perdi, sei que perdi. Coisas demais pra serem enumeradas, importantes, essenciais, especiais. Dói, como dói.
Me disseram não se apega. Me disseram não espere nada. E no fundo achei que estava fazendo isso, não criando expectativa. Mas olha, minha cabeça deu jeito de esconder elas de mim.
Rejeição repuxa meu estômago outra vez. Um sentimento horrível de vazio e decepção. Comigo mesma, por não saber lidar com tudo isso e me deixar chegar aqui. Eu não gosto disso. Você me pergunta se eu não me importo. Eu respondo que não, e sinceramente quero acreditar nesse não. Eu queria não ligar, não me importar. Mas eu ligo.
Eu tento rir. Tento participar, tento entrar nessa vida de alguma forma. Mas não tem espaço pra mim aí. Espero a minha vez, e as vezes ela não chega, vou dormir sozinha e acordo magoada.
Você nunca vai saber disso. Eu vou me ferir e me curar inúmeras vezes até você ficar sabendo disso. Mas quando esse dia chegar. Você vai me perguntar se eu me importo e responderei, com todo o coração, "não mais".